Envolver-se com o outro é a tripla jornada
Minha experiência com relacionamentos sendo uma pessoa gênero dissidente autista tem tanto sucesso quanto minha vida profissional. Aos quase 28 nunca tive um emprego formal e não durei muito em estágios ou longos projetos, isso deve resumir bastante coisa.
Semana após semana, nas sessões com minha psicóloga eu sempre acabo apontando pra mesma coisa: isso/aquilo dá trabalho. Coisas dão trabalho. E um trabalho invisibilizado, não reconhecido, não valorizado. Mais um trabalho que explora, mas um trabalho que só vê quem tenta bastante. Nessa sociedade o trabalho do carinho não se encaixa. Não há tempo para o cuidado, não há definição para além do individualismo e da disputa que permita uma coexistência espalhada pelo espaço. Onde só se relacionam dois pré-determinados, com papéis passados a limpo e bem decorados por todos ali, um gênero cuida, o outro é cuidado. E assim devem se satisfazer, se tiverem sorte (muita sorte) variando os turnos.
Tentando encontrar faíscas de felicidade e encantamento, ao mesmo tempo que trememos e terremotizamos esses moldes que tentam nos limitar, as vezes o que falta é o reconhecimento e a valorização do tentar. Do tentar junto. Do tentar por um nós.
Organizar afetos para melhor afetar e ser afetado, tentar domar a fera a solta que é o amor e a indignação, que lado a lado vão delineando o que queremos por perto e o que queremos bem longe. Isso dá trabalho. Um trabalho imenso, pra qualquer pessoa.
Quando cito que sou autista, esse rótulo vem a tentar comunicar que não está sendo possível administrar muitos desses afetos. Já há uma carga imensa para uma tentativa de comunicar a despeito da temperatura, da luminosidade, do som, do vento, da dobrinha na meia do meu sapato, da conversa dos vizinhos, que versam serenamente sobre a mancha na parede e que não decidem se vão cobrir com um quadro ou um porta retrato. Tentativas constantes de me puxar pro aqui e pro agora pra tentar, mais uma vez, comunicar que não há nada mais se não um desejo de estar aqui. Que estou desesperadamente tentando construir o próximo minuto junto, porque sinto que a qualquer segundo eu saio do meu corpo e me desfaço em um novelo de incomodos e insatisfações. Mas sinto satisfação quando consigo calar isso tudo e estar a sós com você.
E com essa avalanche, a performance falha. E de repente agi com grosseria. E de repente não lhe acolhi o necessário. E de repente eu fazia ser sobre mim. E de repente eu estava tentando controlar. E de repente você não estava mais aqui. E de repente não havia mais porque tentar.
Você me abandonou no posto de trabalho ao qual eu mais me dedicava. Onde eu gostava de pensar que eramos dois embalando a vida, me encontrei com a solidão de não encontrar nem a ponta da fita adesiva.
Não foi do nada, e é isso que em certa medida, quando vem a fraqueza, me faz sentir que eu quem falhei e deixei tudo desmoronar. Que eu estava vendo ruir, que eu tentava mais, mas a represa rompeu da mesma forma, e agora o rio flui e traça um novo caminho, sozinho, se moldando ao espaço já delimitado ou avançando e se espalhando até encontrar um encaixe.
E esse sentir é paralelo ao cuidar de si, ao trabalhar pelo dinheiro e ao cuidar do espaço em que se habita.